UMIDADE

O que me sobra nesta fase da vida é contar estrelas e observar o movimento das nuvens? Viver em uma casinha na montanha, rodeado por cachorros e galinhas de diversas cores? Escutar grilos cantando à noite? Haverá cerração espessa ao amanhecer, mas o sol deve aparecer à tarde? Aroma de flor de laranjeira e algumas goiabas no chão?

Porém, tudo é úmido: as estradas, com seus cristais de gelo; meus olhos e pensamentos, inexplicavelmente úmidos como os lugares intocados que raramente recebem a visita do sol; e o que se ouve são insetos na madrugada e pensamentos ecoando nas paredes silenciosas. Neste mundo de pouco discernimento, fazer escolhas é extremamente difícil.

Nestes dias de feriados prolongados, tenho ficado em casa, grudado na cama, como se meu corpo fizesse parte dela. Não tenho vontade de levantar-me. Penso que não conseguiria um lugar melhor para ficar, para pensar, para esquecer.
Minha casa é uma extensão da minha própria história. Uma mistura de muitas coisas que a mim pertencem. É repleto de objetos que lembram onde vivi e passei meus dias repletos de esperança. Tudo me remete a uma cena de vida, uma lembrança qualquer, um sonho do passado, uma significação inventada. Minha casa é encharcada de coisas com pouco ou sem nenhum valor, mas cheia de lembranças que não dá para apagar.

FELIZMENTE OS FANTASMAS ESTÃO DE FÉRIAS


Depois de tantas noites em claro, ele conta que vem tomando um remedinho para manter o bom humor do dia no trabalho. Às vezes tudo se atrapalha, o remédio não faz efeito à noite e o sono que se acumula o deixa exausto. Ainda bem que os fantasmas estão de férias e não estão invadindo seu quarto à noite tentando asfixiá-lo. A presença de dois felinos que moram com ele parece espantá-los, e a luz laranja do abajur, que lembra as noites memoráveis em Veneza, deixa tudo mais seguro e pacífico, tudo mais acolhedor. 

MACARRÃO E CARNE DE PANELA COM FEIJÃO.

Na casa de minha avó, o portão era alto como uma porta. A cerca de madeira velha era tomada por um  tipo de trepadeira que formava um caramanchão do pátio para a calçada. Parreiras com uvas e árvores de ameixas amarelas formavam uma grande sombra no quintal.

Passarinhos sempre apareciam para se alimentar de frutas que caíam do pé e que não dávamos conta de comer. Cantavam nas horas certas e minha avó preparava o almoço no fogão de lenha, cuja chapa, depois de limpa, brilhava feito aço inoxidável.

Na cozinha, onde fazíamos as refeições, sobressaía-se uma grande pedra da parede que fazia parte estrutural da casa. Naquele paraíso com cheiro de macarrão, molho de carne e feijão recém-feito e temperado, passávamos nossos dias sem pensar que um dia terminaria.

PINGOS


Hoje eu acordei com os pingos da chuva, pingando, pingando, pingando. Pingando nos telhados, na vidraça, nas calçadas até o amanhecer. Escorrendo nas paredes e suas frestas. Nos espelhos embaçados e olhares de insônia.
Nos olhos vigilantes e aborrecidos de quem não dormiu. Ouvindo os pingos, pingando, pigando, pingando.
Pingando sobre os automóveis nas ruas e flores nos jardins. Alertando que amanhã será um novo dia, mesmo chovendo.

AS TRES MENINAS



As três meninas eram dos campos da Cecília
onde os Scliar tinham uma casa de campo

Eram três meninas loirinhas cujos cabelos pareciam trigo sacudido ao vento. Quando seus pais abriram um negócio, colocaram o nome de ARMAZÉM DAS TRÊS MENINAS, uma homenagem a elas. Na época em que compraram o sobradinho, conjugado ao armazém, era tudo um descampado, quase sem nenhuma casa por perto.
Eram três meninas e o tempo se encarregou de levar primeiro Elizabete, ficando apenas Beatriz e Iolanda. Depois nasceram Cristina e Isabel. Passados alguns anos, das quatro meninas, ficaram somente três e depois duas. Agora é somente uma, Isabel. 
Cristina nos deixou hoje. Talvez na madrugada, quando meu espelho se espedaçou na sala, fazendo-me acordar, tomado pelo susto.

PRA CARALHO


                              A ORIGEM DO TERMO "CARALHO"

A palavra que usamos por tantos motivos hoje, era uma palavra que os marinheiros portugueses usavam para denominar o local da pequena cesta de vigia, a "Gávea", que se encontrava no alto dos mastros das naus ou caravelas.
Este local alto do barco chamado CARALHO era onde os vigias subiam para ver o horizonte em busca de sinais de terra. 
Também era considerado um lugar de castigo para aqueles marinheiros que cometiam alguma infração a bordo. Quando um marinheiro cometia uma infracção era enviado logo para o CARALHO.
Ele ficava em cima do CARALHO a cumprir horas ou dias inteiros com um sol ardente. Quando a pessoa descia, ficava tão enjoada que chegava até a ficar muito calma ou tranquila por vários dias. Isto porque, no CARALHO, era o local onde se manifestava com maior intensidade o rolamento ou movimento lateral de uma caravela.
Foi assim então que surgiu a expressão "VAI PRÓ CARALHO!"
Isso você nunca irá aprender nas escolas.



FAZENDA

Milton.

Água de beber, bica no quintal. Sede de viver tudo. E o esquecer era tão normal, que o tempo parava.  E a meninada respirava o vento. Até vir a noite. E os velhos falavam coisas dessa vida. Eu era criança, hoje é você e, no amanhã, nós.
Eu era criança, hoje é você e, no amanhã, nós.

A CURVA


Os aviões que chegam ao Aeroporto de Porto Alegre, fazem uma curva para pousar. 
Sim, na cabeceira 11, localizada ao lado da BR-116, que é a mais utilizada no aeroporto, especialmente em condições de vento favoráveis.
A aeronave realiza o procedimento de aproximação e, antes de tocar a pista, faz uma manobra final para alinhar-se com a cabeceira 11 e pousar de forma segura.
Esta curva no ar é um sinal. Um sinal de que chegamos em casa é estarmos salvos, mortos de saudades da nossa casa, do nosso cheiro, de alguns amigos em especial.

UM HOMEM ABANDONADO

Um homem finalmente sai da prisão depois de ser preso por um crime cometido pelo irmão. Ressentido com sua família, ele procura formas de reconstruir sua vida. Mas seu coração amolece quando ele passa a tomar conta de sua sobrinha, se abrindo para um mundo de perdão e transformação interna.
E daqueles filmes em que a emoção vem aos poucos e o choro surge de um jeito tranquilo.

O filme da Netflix que corresponde à descrição é o drama turco. Um homem abandonado, lançado em agosto de 2025.

PROJETADO PARA SONHAR

O bar ficava numa área montanhosa, no fundo e acima de uma pousada. Para se chegar, subíamos alguns lances de escada, que nos consumiam rapidamente o ar. Afinal, estávamos num lugar de grande altitude.

Depois que vencemos a escada, chegamos ao bar com enormes placas de vidro, onde era possível ver toda a cidade do alto, com suas casas cobertas com telhas de barro, as montanhas espalhadas mais ao fundo, estradinhas que sumiam no infinito de um terreno aparentemente árido.

O extenso salão era dividido em áreas menores apenas pela distribuição dos móveis, que criavam ambientes menores e aconchegantes. Um grande sofá de modelo inglês e na cor melancia me chamou a atenção por sua cor e conforto logo que entrei. A alma daquele lugar grudou em mim de um jeito inexplicável.

Algumas vezes, sonho que estou neste lugar. Não apenas admirando a beleza da cidade, mas também experimentando seu ar com baixo teor de oxigênio, sua terra de cor avermelhada e quente. Cusco é daqueles lugares que sempre quero voltar e sentir seu cheiro sentado no sofá de cor melancia. Nem que seja em sonhos ou lembranças.

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