Quando foi que estabelecemos pagar uma pizza tamanho família por cento e vinte reais e um cachorro-quente com salsichas cortadas em rodelas e molho ralo por cinquenta e dois reais? De consolação, umas microgramas de maionese, mostarda e ketchup.

UMIDADE

O que me sobra nesta fase da vida é contar estrelas e observar o movimento das nuvens? Viver em uma casinha na montanha, rodeado por cachorros e galinhas de diversas cores? Escutar grilos cantando à noite? Haverá cerração espessa ao amanhecer, mas o sol deve aparecer à tarde? Aroma de flor de laranjeira e algumas goiabas no chão?

Porém, tudo é úmido: as estradas, com seus cristais de gelo; meus olhos e pensamentos, inexplicavelmente úmidos como os lugares intocados que raramente recebem a visita do sol; e o que se ouve são insetos na madrugada e pensamentos ecoando nas paredes silenciosas. Neste mundo de pouco discernimento, fazer escolhas é extremamente difícil.

Nestes dias de feriados prolongados, tenho ficado em casa, grudado na cama, como se meu corpo fizesse parte dela. Não tenho vontade de levantar-me. Penso que não conseguiria um lugar melhor para ficar, para pensar, para esquecer.
Minha casa é uma extensão da minha própria história. Uma mistura de muitas coisas que a mim pertencem. É repleto de objetos que lembram onde vivi e passei meus dias repletos de esperança. Tudo me remete a uma cena de vida, uma lembrança qualquer, um sonho do passado, uma significação inventada. Minha casa é encharcada de coisas com pouco ou sem nenhum valor, mas cheia de lembranças que não dá para apagar.

FELIZMENTE OS FANTASMAS ESTÃO DE FÉRIAS


Depois de tantas noites em claro, ele conta que vem tomando um remedinho para manter o bom humor pessoal nos dias de trabalho. Às vezes tudo se atrapalha, o remédio não faz efeito à noite e o sono que se acumula de dia o deixa exausto. Ainda bem que os fantasmas estão de férias e não estão invadindo seu quarto à noite tentando asfixiá-lo. A presença de dois felinos que adotou, parece espantá-los, e a luz laranja do abajur, que lembra as noites memoráveis em Veneza, deixa tudo mais seguro e pacífico, tudo mais acolhedor. 

MACARRÃO E CARNE DE PANELA COM FEIJÃO.

Na casa de minha avó, o portão era alto como uma porta. A cerca de madeira velha era tomada por um  tipo de trepadeira que formava um caramanchão do pátio para a calçada. Parreiras com uvas e árvores de ameixas amarelas formavam uma grande sombra no quintal.

Passarinhos sempre apareciam para se alimentar de frutas que caíam do pé e que não dávamos conta de comer. Cantavam nas horas certas e minha avó preparava o almoço no fogão de lenha, cuja chapa, depois de limpa, brilhava feito aço inoxidável.

Na cozinha, onde fazíamos as refeições, sobressaía-se uma grande pedra da parede que fazia parte estrutural da casa. Naquele paraíso com cheiro de macarrão, molho de carne e feijão recém-feito e temperado, passávamos nossos dias sem pensar que um dia terminaria.

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