CONVITE INOPORTUNO.

Logo agora que eu não tenho força para subir montanhas.
Olhos para enxergar o horizonte.
Agilidade nos braços para nadar em teu lago, 
que me estendes a mão, num convite simpático?
Ah, este convite demorou demais.
Mais do que a própria vida. 
Envelheceu os anseios e chegou tarde demais...
Agora quero voar  nestes céus que inventei 
e descansar na fragilidade das nuvens. 
Caminhar na beira dos abismos, sem medo de cair.
E se acontecer de cair, saio por aí voando.
Planando.
Levitando na minha própria sorte.
Esta mesma, que te tornou distante...

SOMBRA DISTORCIDA.


Por aqui, nada de novo acontece é somente eu, eu e eu, de cara estampada nas manchetes da minha imaginação e que vou alimentando com argumentos vil, para me penalizar, me vitimar, me tornar impotente, vulnerável e sem forças.
Aprendi a bater de frente com desencontros, a tropeçar em duvidas. 
Me perco, me acho, me escondo, me excluo de toda a culpa, de todas as responsabilidades pra não mostrar minhas fraquezas.
Me transformo num disco arranhado repetindo sempre a mesma coisa: Eu, eu e somente eu, a buscar-me, a achar-me, a desencontrar-me, a perceber que tudo é o mesmo, que nada mudou e que não tenho nenhuma estratégia eficiente para sair desta angustia.
Sou uma sombra distorcida como muitos, disputando um pedacinho de luz.

NADA É MELHOR QUE A TUA AUSÊNCIA.


Descobri hoje cedo, ao levantar-me da cama, com grande surpresa, que nada por aqui é melhor que a tua ausência. Esta mesma ausência que tanto me frustrou e me delegou poderes de aprisionar minha própria alma e a tua.
Foram tantas brigas, insinuações, lamentos e tentativas de perdão que não foram possíveis.
Levantei cedo sob o silencio da casa, abri janelas e gavetas, arrastei cadeiras, coloquei um disco para rodar na vitrola e me senti liberta de certos apegos e sortilégios desnecessários.
Depois de tantos meses quieta, sem desentendimentos e magoas, estou aparentemente curada, sentada em paz e apreciando uma xícara de café, como a muito tempo não apreciava.
Há na vida certas surpresas: Contraímos dores, que de uma hora para a outra, desaparecem inexplicavelmente ao levantarmos da cama e descobrir que nos bastamos.
Faltam agora, passarinhos pousarem na janela.

O ANOITECER NA ILHA.


Ele apoiou os braços na janela, para observar o Pôr do Sol, que lhe perecia particularmente com uma luminosidade diferente dos outros fins de tarde que costumava ver e por alguns instantes, desconfiou que ela, em sua casa, também pudesse estar debruçada na janela, assistindo este mesmo espetáculo, que ele contemplava com surpresa.
Pensou que talvez necessitassem naquele momento, estarem juntos, lado a lado, assistindo toda aquela beleza, contradizendo este mundo da pressa e dos compromissos inadiáveis, para assistirem aquele Sol e  comentarem tudo à respeito.
Por outro lado, sua timidez impedia-o de pegar o telefone, de mandar uma mensagem, pois o motivo lhe parecia tão bobo e sem sentido.
Percebeu que estavam quase sempre indisponíveis e que talvez algumas ausências provocadas por alguns compromissos, fossem responsáveis pela falta de coragem de fazer um convite daqueles.
Então ele ficou no mesmo lugar, com os cotovelos já doloridos, apoiados na janela, observando o sol se ir, a cidade aos poucos escurecer, com a sensação de estarem juntos, mas também separados, cada um na sua janela, mudos, sensibilizados, incomunicáveis, na mesma ilha que anoitecia.

A GENTE SE ACOSTUMA

Encontrei este vídeo por acaso, na pagina do Facebook de uma amiga. Palavras que devem ser ouvidas para uma reflexão profunda sobre nossas atitudes diante da vida e de nós mesmo: "A gente Se acostuma"

TEMPOS MODERNOS


Então eu embarquei numa outra nave e me distanciei, sem olhar pra traz. Não quis ficar ali aguardando a decisão de quem possivelmente me acompanharia, pra aqueles mesmo destinos desconhecidos que sempre busco e me transformo em outra pessoa...
Todos ficaram sentados ali, na ante-sala  de luz moderada, aguardando a decisão que não vinha de ninguém, pois todos se mantinham em silêncio, cabeças baixas, distraídos, a procura, talvez de sonhos, aplicativos que os mantivesse meio vivos, meio alegres, despreocupados.
Os dedos ágeis e o olhar fixo numa telinha luminosa, os hipnotizavam e os transformavam em raros robôs de expressões humanas, que não sabiam o rumo a tomar, nestes tempos que se parecem tão modernos.

COMUNICAÇÃO CARICATURADA.


Fiquei fingindo naturalidade, depois, fugindo o tempo todo pelos cantos do apartamento, com uma certa inibição de quem descobre-se deslocado por estar no lugar errado e na hora equivocada.
Em cada lugar que eu me acomodava, para aliviar aquela sensação desagradável, ela vinha e sentava-se do  meu lado, com o telefone celular entre os dedos, forçando presença.
Mantinha-se quase que em silencio, quebrado apenas por algumas frases soltas de atenção a mim, retomando o assunto interrompido. Em seguida voltava-se para o aparelho, que lhe fazia alterar a expressão do rosto significativamente.
Por outro lado, fiquei pensando!!..
Tem pessoas que acreditam ser possível administrar com naturalidade uma atenção coletiva, tratando de assuntos diferentes ao mesmo tempo, sem prejuízos de outros, mesmo desviando o foco e promovendo uma comunicação caricaturada e confusa.
A sensação que me dá, disto tudo, é que o corpo está presente, mas a alma, expressada no rosto, fica escondida por de atrás de mascaras de teatro grego, que vão sendo trocadas a cada momento necessário. Num minuto é a tragédia, noutro é a comédia, intercalados por qualquer coisa vaga.

OBJETO NÃO IDENTIFICAVEL.

Tem gente que não se mostra.
Não se expõe.
Não se aproxima.
Não se mistura.
Não da sinal de luz.
Fica somente a margem.
No fluxo calmo da correnteza.
Flutuando no limite da água e da areia.
Balanceando nas ondas.
Se arranhando.
Como um objeto curioso e não identificável.

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Quando as nossas emoções, alegrias e tristezas passam do tempo, nossos sentimentos humanos ficam acomodados numa cesta do tempo recebendo so...