REFLEXÕES SOBRE AS JANELAS


Vim do trabalho meio pensativo e fiquei olhando janelas e mais janelas de diversos modelos, enquanto me dirigia para casa. Caminhando pela calçada, observava atentamente seus traços, cores, tamanhos, que por vezes não combinavam com as portas e as casas a que pertenciam.
Janelas sempre me pareceram ter vida própria e eu também ficava imaginando de que forma elas abririam suas folhas para a rua, para a luz, na direção do Sol como as plantas fazem.
Sempre me chamaram a atenção, pois são silenciosas, pulsáteis, tensas e reveladoras. Me parecem ocultar segredos de um bau escuro, antigo e esquecido.
São testemunhas de estórias guardadas. Combinam com cotovelos doloridos que se apoiam à espera de respostas sem vozes.
Enquadram sombras e rostos, que observam o mundo, a vida andando rápida, buscando lembranças, sonhos, fantasias, pistas de um tempo que fugiu, sem dar explicações...

NÃO LIGO. DESLIGO.


Alguns frases, textos, poesias que leio, musicas que ouço, me revelam fantasias de Marte, outras me dão necessárias respostas sobre a minha frágil natureza de homem e me faz parar a nave no ar, questionar e colocar meus pés descalços sobre a terra firme. Outras diferentemente, chegam até mim em forma de códigos emocionais, que são identificados por sentimentos tão profundos, que a luz não chega, que a própria razão desconhece e não encontra lógica, não decifra, não revela. Vem embrulhada em papel fino e da cor da pele, camufladas.  Mas eu finjo que não percebo, não ligo, me desligo pra continuar voando por ai.

De manhã cedo ela saí. 
Leva a chave, me deixa trancado o dia inteiro
Não ligo, deito sobre os trilhos... 
Vejo o trem passar.
Entre brinquedos, cigarros. 
O Tesouro da Juventude, não sei quantos volumes
E quando canto. Deixo a imaginação voar
Mas ontem à noite, a mão sobre meus cabelos. 
Ela disse: Meu bem não tenha medo
No verão que vem. Nós vamos à praia
         
                                                        Gilberto Gil

GLADIADORES

Cada coisa chega na vida da gente, sob a tutela de seu tempo, dividida em suas devidas fases. Primeiro voce timidamente experimenta, descobre, depois se reconhece ou não. Reconhecer-se faz voce perceber visceralmente que elementos emocionais seus, fazem parte de uma situação ou espaço de afinidades que se completam através do prazer, da aceitação, do sentimento de liberdade, da paz pessoal, etc....
Opiniões ou definições capengas, de que isto ou aquilo, não te servem mais, não faz a menor diferença. O tempo vivido, nada tem haver com a velhice, que está mais para um estado de espirito, do que para velinhas que foram sopradas. Foi então quando pensei ser um gladiador.

Ontem de manhã quando acordei, Olhei a vida e me espantei. Eu tenho mais de vinte anos. E eu tenho mais de mil Perguntas sem respostas... Estou ligado num futuro blue... Ontem de manhã quando acordei...

LADRÕES DE ALMA.


Então eu o abracei pelas costas, enquanto sentia o seu cheiro e o calor da sua nuca na minha boca, que queria morder com calma a fragilidade da sua pele quente.
Era uma noite fria e por mais que suas coxas se movimentassem entre as minhas, ele não podia e nem queria se escapar de mim, que procurava um jeito de roubar-lhe a alma por inteiro...
É nestas horas que encontramos algum conforto, nós soldados de Roma, que só pensamos na estratégia de possuir uma ao outro, até o final.
(De J.Poul Bermont)

O IRREVERENTE MUNDO DOS SONHOS.


Minha amiga, já morta, me apareceu em sonho, com os cabelos longos e negros, como nunca tinha usado quando viva. Sua irmã inseparável e também morta, cortara os seus, de um modelo tão curto e masculino, que se parecia com um homem. Já minha avó, estava com a pele muito escura e o corpo pequeno, que me lembrava uma anã.
Em seus olhares, gestos, atitudes mantinha uma realidade já não mais existente e garantiam pra mim, um tanto surpreso, a certeza de suas identidades reais, ainda vivas na minha lembrança.
Como podem os mortos estarem tão vivos? Eu me perguntava ainda em sonho.
Acredito que sonhos sejam a melhor forma de comunicação com nossos mortos e de matar a saudades que eles em nós deixaram, com suas ausências.

O ABRAÇO.


O abraço tem nome e deveria ser sempre apertado e demorado, a cima de tudo, muito mais do que um movimento de músculos, que envolve outros músculos num trabalho mecânico, que gera força e energia. 
Esta mesma energia, de que falo, deveria ter o poder de ultrapassar músculos e ossos, entrar na alma e fazer o sangue ferver, mudar a cor de nossa iris, provocar amnésia.
O calor de um abraço por minutos, deveria parecer de horas, uma eternidade, a morte do antes e a ressuscitação do depois. Mas ainda deve haver tempo para aprendermos mais sobre este gesto de espontaneidade e poder.



NOSSO TUDO.


Fiquei pensando na dificuldade de nos mostrarmos por inteiro, mostrar nosso tudo, o que somos de verdade, como pensamos e agimos, nossos defeitos e virtudes, nossos fracassos sem sermos banalizados, caçoados, enfim... Eu me pergunto, se apostarmos na franqueza como um diligente da verdade, da honestidade, seria um passo para a liberdade ou arrependimentos? Será que tudo o que escrevemos num blog, por exemplo, é capaz de nos definir, mostrar genuinamente os mistérios de que somos feitos, ou é melhor se calar, fingir ser de palha, evitando assim, ser esmagados pela trupe dos iguais e de maior quantidade? Até quando?
Um cara importante disse, que quando se é franco sobre nós mesmos, rompemos paradigmas e isso quebra o gelo do entendimento e aí você está livre para ser franco sobre tudo e isso é socialmente útil no sentido da aproximação das diferenças. (Allen Ginsberg).
Uma colega de viagem, dona de um blog chamado "Olha seu Psicanalista" descreve num post o seguinte texto:
"Sabe seu psicanalista? As vezes eu tenho um tiquinho de medo. Medo não de nada grave. Medo de coisa simples. Coisa boba. De gente que se acha maior do que é. Meu medo (e é um medo terrível) é que as pessoas leiam esse blog pelo lado errado. Pelo post errado. Aquele que eu escrevi quando tava de saco cheio. Quando dormi com a bunda destapada. Que escrevi só por escrever".
E isto é uma verdade, somos guiados pelo medo. Medo de não sermos compreendidos, de sermos mal interpretados, medo de sermos nós mesmos e isto nos tira a chance da franqueza, por que é mais fácil sermos mentirosos com holofotes ligados. 

DOENÇA DO MEDO E DA DESUMANIDADE.

Semana passada vi do outro lado da calçada uma mulher que puxava um menino ensanguentado, quase de arrasto. Ele teria sido agredido, atropelado?.. Mas antes que eu tentasse uma interferência pacifica, eles sumiram numa esquina, sem deixar vestígios de pra onde tinham ido. Ja assisti algumas crianças sofrerem punições de seus pais, por terem sido agredidas ou atropeladas. São punidos e humilhados por não terem ainda desenvolvido seus instintos de auto cuidado e defesa. São tratados como pequenos adultos.  Eu não gosto de sair as ruas e ver crianças ensanguentadas e de olhar triste, sendo arrastadas por suas mães, também desesperadas, despreparadas...


Não dá para fechar os olhos e fingir que não estamos vivenciando esta triste realidade. Não dá para desviar a atenção, sem levar flash desta triste imagem de dor para casa, onde construímos castelos imaginários com trancas eletrônicas e senhas complexas, campos de força eletro magnéticos, escudos invisíveis, para nos protegermos de toda a violência que circula entre nós e nas ruas. Que engano nosso! Compramos perfumes importados, banheiras de hidromassagens, ar condicionado com purificadores de ar, lençóis de seda, cãezinhos cheirando a talco Pom Pom, para marcar  o que pensamos ser a nossa diferencia. Sentimos como se a fome e a pobreza, fossem doenças contagiosas espalhadas nos cruzamentos das ruas, nas calçadas, sob as marquises dos edifícios. Trancamos nossas portas, janelas, erguemos os vidros dos nossos carros para evitar aproximações e contágios. Mas já estamos contaminados pela doença silenciosa do medo e da desumanidade.

SENTIMENTOS INEXPLICÁVEIS DE AFETO.



Alguns sentimentos de afeto, surgem assim, num piscar de olhos, num estalar de dedos, na velocidade de uma gota d'água que cai e se espatifa no chão. Ultrapassa a compreensão e alguns valores estabelecidos pelos nossos conceitos de aceitação intelectual, de beleza e estética. Seja num gesto comum, num olhar, numa palavra escassa, num entortar de boca, que chama a atenção e te obriga a virar a cabeça num gesto involuntário, num olhar tímido e cuidadoso acompanhado de auto vigília. Quando nos percebemos, estamos de quatro e o que está a nossa volta, parece perder o excesso de importância.
As vezes nos desconforta esta sensação pela qual temos pouco domínio, que nos acende e nos desequilibra, que nos pondera impossibilidades e resfria, que alimenta nosso ego em pequenas doses homeopaticas de expectativas e noutros momentos de desesperança que resseca a boca. 

QUEBRANDO TUDO.


Nada mais gostoso do que quebrar uma taça com vontade e vigor!.. Mirar uma parede como alvo e lança-la ate se espatifar em dezenas de pedaços. Ás vezes me vejo quebrando quase tudo, simples objetos a minha volta, penso adquirir nesta violência imediata, um alivio de tensões. Eu termino por acreditar em reparações, me libertar do que já estava por se partir a algum momento.
Tenho uma segunda escolha, a de aguardar que os dias me mostre o melhor caminho, a melhor solução com paciência e civilidade, porem a demanda do tempo, me faz tomar medidas radicais, evitando ciclos que podem ser intermináveis, prorrogações que sempre retornam pro mesmo lugar.
Isto tudo me parece muito simbólico, já que a vida é carregada de símbolos incompreensivos, que também reagimos a eles simbolicamente. Você acha isto tudo uma doideira?
Quebro tudo para romper este ciclo estagnado, para desfazer este tempo ocioso de espera, este peso que me caleja as costas e transforma tudo num mal estar, mesmo que temporário. Quebro para expulsar a dor e me libertar. 

COMIGO NINGUÉM PODE


Quando ele comentou a beleza da folhagem que eu tenho sobre uma bancada na cozinha, lembrou em seguida de outra planta, que também gostava e achava bonita, mas que era venenosa. Depois completou pensativo, enquanto passava a palma da mão sobre o rosto: Eu sou uma "Comigo Ninguém Pode", por que comigo ninguém pode!.. Risos.
Estávamos por demais chapados e alegres depois daquele beque guardado a tantos meses na geladeira... Fiquei pensando que talvez fossemos plantas ou animais machos diferentes, que são obrigados pelas incidências de fatos, a crescerem tortos e marcados por um certo veneno natural que La doce, mas também amarga vita se encarrega de nos acrescentar.

O QUE VOCÊ PREFERE?


Algumas vezes um dialogo com a gente mesmo, vale a pena, mesmo que pareça superficial e sem grandes propósitos: 
Laranja ou maçã?.. Há, laranja? Ótimo! Acho a maçã muito doce e sem graça, prefiro as frutas mais cítricas!
Pêssego ou uva?.. Nenhuma dessas? Prefiro maracujá, tenho fissuração por aquela gominha amarela que envolve as sementes e dá aquele azedo gostoso na boca de arrepiar, como se cometêssemos um pecado e o alerta fosse sentido por todas as papilas!
Bananas? Só carameladas e com canela, de outra forma, acho que me causa desconforto estomacal!
Leite? Somente gelado! Uísque? Puro e sem gelo, on the rocks, em ocasiões sociais pra não perder o tino! Carne? Só se for branca! Feijão nem pensar provoca gases!
Café da manhã? Tem que ter aveia e iogurte, pão pesa e engorda!
Alface? Completamente sem graça, prefiro rúculas que dá aquele amargo na boca!..

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Quando as nossas emoções, alegrias e tristezas passam do tempo, nossos sentimentos humanos ficam acomodados numa cesta do tempo recebendo so...