terça-feira, 17 de maio de 2016

NOITE DE VENTO, NOITE DOS MORTOS

Ontem quando choveu por aqui, uma forte ventania quase derrubou arvores e foi arrancando galhos que varreram  ruas e calçadas. A cidade não só parecia vazia, mas singularmente transformada em outra.
Estes ventos que sopram forte por aqui, me jogam nas paginas de Érico Veríssimo, me fazem lembrar dos gestos duros das mulheres do interior, do seu silencio, da doçura no olhar que guarda a esperança por tempos e ventos de possíveis mudanças.


"E de novo o povoado ficou quase deserto de homens. E outra vez as mulheres se puseram a esperar. E em certas noites, sentada junto do fogo ou à mesa, após o jantar, Ana Terra lembrava-se de coisas de sua vida passada. E quando um novo inverno chegou e o minuano começou a soprar, ela o recebeu como a um velho amigo resmungão que gemendo cruzava por seu rancho sem parar e seguia campo afora. Ana Terra estava de tal maneira habituada ao vento que até parecia entender o que ele dizia, nas noites de ventania ela pensava principalmente em sepulturas e naqueles que tinham ido para o outro mundo. Era como se eles chegassem um por um e ficassem ao redor dela, contando casos e perguntando pelos vivos. Era por isso que muito mais tarde, sendo já mulher feita, Bibiana ouvia a avó dizer quando ventava: "Noite de vento, noite dos mortos..."

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