Sim, não

Wladmir e eu voltávamos de algum lugar que agora não lembro, mas sei que chovia muito e eu podia ouvir o ruído dos pneus dos carros esmagarem as possas d'água sobre o asfalto negro da avenida Ipiranga. Luzes e faróis se refletiam no chão molhado e multiplicavam imagens indecifráveis e o vento com chuva fina batia-me no rosto enquanto eu contava em silencio os postes que iluminavam o inicio da noite sobre as calçadas. Então me bateu um sentimento de esvaziamento interior, (aquela) vontade louca de parar sem olhar para os lados. Parar com tudo em que me envolvi nesta nova fase de vida e que agora já acho velha, porque houve desgaste, porque virou rotina, uma ressaca de uma embriaguez que foi gostosa mas que pouco a pouco tem causado um mal estar crescente. Simplesmente bater a porta e sair andando sem também olhar para traz, decidido. Debulhar a vida, devolver-me a sensação agradável do que realmente vale a pena e ir para algum lugar em busca disto.

Repensando

A morte do astro Michel Jackson, o infarto do meu colega de quarenta e cinco anos, internado na UTI e o comentario do Nilson na janela da ambulancia enquanto partíamos apresados para um novo atendimento,... (_É, a gente precisa ter uma vida melhor e se preparar para uma velhice digna!) me fez parar e pensar em como realmente estamos despreparados para surpresas como estas em nossas vidas!...

Cantorias e cabernet sauvignon

Hoje é Sábado e então brotou-me até uma pequena indignação quando cheguei em casa do trabalho e percebi que não havia programado nada para esta noite. Os poucos telefones que tentei quando me dei por conta, diziam com aquele voz eletronica e me irritavam profundamente:
_Este telefone está desligado ou fora da área de cobertura, pôr favor, tente mais tarde!.. _Este telefone não está programado para receber ligações!.. _Não foi possível completar sua ligação, tente mais tarde!..
Pareciam estarem todos eletronicamente 'configurados' contra meus planos de sair. Na verdade não sabia exatamente o que gostaria de fazer mas... Sobrou-me então uma garrafa de cabernet sauvignon guardada no armário e as cantorias de Vital Farias para que eu me (desconfigurasse) deste clima de impossibilidades. Um brinde!

Cotidiano

Na quinta-feira, não sei por que razão fiquei tão angustiado em deparar-me com aquela cena comum em familia, com aquele cotidiano que absolutamente não era o meu e provocou-me inusitado sentimento de desordem pessoal.
Xícaras com resto de café sobre a mesa, que havia sido bebido recentemente, a TV ligada no programa "A Grande Familia," cobertores no sofá para aquecerem os pés. Fiquei deslocado de tudo aquilo, esperando o momento certo de dizer adeus e sair correndo pra rua. Já em casa e envergonhado da minha atitude, percebi que não encontraria jeito e palavras para levantar o telefone e pedir desculpas.

CAMINHADA SEM FIM.

Sentado no hall do edifício eu admirava a rua, as pessoas e alguns carros que trafegavam por ali e por um breve instante, senti um aperto no peito. Sim, às vezes sinto isto, uma dor que não é física, mas que defino pessoalmente como um aperto na alma, como se fosse saudades ou talvez melancolia de algo que nem sei o que é. Eu olhava a rua mas não percebia mais o que se passava nela pois meu olhar ultrapassava a parede envidraçada e se distanciava para outro lugar, muito, muito longe dali. 
E eu caminhava agora ofegante, pôr ruas estreitas e de pedras antigas onde homens e mulheres negras vendiam comida e usavam roupas coloridas diante de casas também coloridas de um amarelo, azul e vermelho vibrantes e percebia que eu não estava mais na minha rua, na minha cidade, no meu estado mental normal. Eu caminhava quieto e com uma sensação de alegria contida, mas também retraído, entre a multidão de pessoas, para que não percebessem que eu estava fora do meu lugar, naquela viagem fora do meu tempo real e com medo de ser descoberto. Ao mesmo tempo eu me perguntava, na tentativa de restabelecer alguma segurança, (quem saberia que eu não era dali, a não ser eu mesmo?) Surgiam alguns lapsos de memória e eu perguntava-me perplexo o que eu fazia ali, o que eu procurava? Já estava cansado quando parei de caminhar e procurei um pouco de fôlego para continuar, continuar, continuar esta caminhada sem fim...

É, a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela!..

É, as vezes a gente quer dizer tantas coisas e não diz absolutamente nada, apenas fica calado pensando em dizer... Acho que não sou o único a sentir isto e nem serei o ultimo desta fila, mas dai encontrei Gonzaguinha no Youtub que colocou de forma criativa e sensível um pouco deste sentimento que é de todos nós.

Fora de Ordem

As vezes quando me dou pôr conta, me encontro as avessas, e então surge a sensação de que estou inadequado em meu próprio espaço e que não pertenço a esta cidade, a este pais e que se não fosse um absurdo total, diria ate não pertencer a este mundo. Fico meio fora de ordem, assistindo tudo a minha volta como um vídeo que aos poucos vai perdendo a cor e pôr fim a nitidez. Será que o mundo virou de cabeça para baixo e eu não sei?..
"...E o cano da pistola
Que as crianças mordem
Reflete todas as cores
Da paisagem da cidade
Que é muito mais bonita
E muito mais intensa
Do que no cartão postal...

Alguma coisa
Está fora da ordem
Fora da nova ordem
Mundial..."
Caetano Veloso.


NÁUFRAGOS.

E de repente um cheiro peculiar me levou para um outro lugar e eu segurava teu rosto com as duas mãos espalmadas fixando meus olhos dentro dos teus meio assustados com a minha atitude inesperada. E nós estávamos nus sobre a areia quente de um deserto que inexplicavelmente começou a brotar grama por todos os lados e foram crescendo tão rápido que nos cobriu por inteiro. O Sol virou nuvem e então ficou frio. E eu me deitei no chão em posição fetal e tu tentavas me cobrir com o teu corpo dizendo: _Acorda, acorda, não durma!.. E eu não queria acordar, só queria ficar ali quieto e morrer sem acordar com o teu corpo sobre o meu feito lápide.

LA DOLCE VITA DE FELLINI E A ULTIMA CENA.

Estive pensando que o mundo é cheio de símbolos e que a vida da gente é cheia de situações simbólicas, de comunicações falhas e pouco compreendidas, dificultadas por mecanismos externos que por vezes não identificamos de onde vêem e que afetam a nossa sensibilidade e percepção. Dai, sobra a escolha que mais se adequa aos nossos anseios imediatos, mesmo que depois viemos a nos arrependermos... 
Lembrei disto ao rever ontem a cena final do filme 'La Dolce Vita' de Fellini, que pra mim é um dos melhores.
Observe a tentativa de comunicação entre a menina Beatrice e Marcello na beira da praia, prejudicada pelo ruido do vento e do mar e evidentemente pelo seu próprio desinteresse em ouvi-la, de compreender o que a garota estava querendo lhe dizer. 

Observe o olhar da menina depois que ele se afasta, observe seu ultimo olhar, lançado na nossa direção perguntando-nos se também desistimos, se perdemos a inocência ou a razão de viver.




Esperando Godot

Então eu corri as pressas para casa na ânsia de deixar quase tudo que a mim me cabia, pronto. Poderia ter sido uma noite agradável de sorrisos e vinho tinto se não fosse a ligação desanimadora desmarcando tudo em cima da hora e a outra que fiquei esperando e não recebi. Sobrou apenas cinzas da expectativa desfeita e uma garrafa de vinho que beberei mais tarde, como Wladimir e Estragon na estrada, esperando Godot!

Pode ser que tudo mude quando chegares em casa

Pode ser que tudo mude quando tu chegares em casa e leres no espelho do banheiro com creme dental -Eu te amo!
Pode ser que tudo se transforme quando alguém te disser que teu café tem um sabor especial e que ninguém faz igual.
Que teu corpo é mais quente...
Que teu olhar tem mais luz que os outros olhares...
Que teu sexo é mais gostoso...

E aí tu ficarás pensando pra onde tudo isto vai te levar e que tipo de responsabilidade tens sobre tudo isto!
Basta ouvir: - Eu te amo?

Fato curioso

Mandaram-me esta semana, um motorista novo, para trabalhar comigo, chamado Gil e então durante um agitado atendimento de um paciente com falta de ar, gritei por seu nome para que me alcançasse algumas coisas que eu precisava no momento. Havia entre as pessoas que estavam a nossa volta observando o atendimento, uma senhora que ao virar-se e olhar curiosa para os meus cabelos volumosos disse para uma outra a o seu lado: _Ele deve ser o Zé Ramalho!

Mascara de Paz e paciência

Meu colega de trabalho andou me achando um tanto ansioso nestes poucos dias que trabalhamos juntos, depois de seu retorno das férias, inclusive não me permitia usar com frequência o rádio de comunicação, somente quando era extremamente necessário. Disse-me que eu ficava muito estressado e tornava-me agressivo pôr motivos às vezes desnecessários. Fazia brincadeiras provocando meu senso de humor. Eu bem que me esforçava para melhorar e evitar que alguns enguiços funcionais e pessoais me atingissem , mas em alguns momentos era difícil impedir que me afetassem de maneira a sentir muita raiva e me deixasse angustiado e insatisfeito com tudo. Então me mostrava mais calado e ausente, transformado em alguém que não sou e que os outros desconhecem, usando mascaras que simulavam paz. Mas alguns dias depois, fiz um atendimento que surpreendentemente salvou minha (auto-estima), então pude me livrar dos enguiços e retirar minhas mascaras de vez...

Fuso-horários

Algumas pessoas parecem viverem num fuso-horário diferente da gente, mesmo vivendo no mesmo país, na mesma cidade e com isto provocando desencontros absurdos que te fazem surtar se não estivesse embuido de paciência e esperança cristã. No momento em que tu precisas fazer um contato, não atendem ao telefone pôr que estão dormindo, se tu ligas mais tarde estão no banho e liga de novo o telefone está ocupado e liga mais uma vez saiu para o supermercado, o celular desligado, até tu desistires de vez e entregar este encontro, a sorte, ao acaso, a coincidência de tropeçarem na mesma calçada exclamando com surpresa:
_Meu Deus, tu pôr aqui, precisava demais falar contigo hoje, mas tu não me liga!
Daí tu tentas explicar que tentou mas não consegue por que recebe uma avalanche de explicações misturadas com problemas simples mas inaceitáveis.
_Precisamos conversar, mas agora estou com presa, minha vida está uma loucura, nem te conto. Vê-se me liga, estou sempre em casa! Tu não me ligas!..
Tic-tac, tic-tac, este é o ruído de um relógio, ou de uma bomba pronta para explodir e acabar com tudo, inclusive com uma amizade! Brincadeira, não quero ser demasiado irônico, ou digamos venenoso neste comentário! Mas estive pensando que algumas situações na nossa vida se sobrepõe ao nosso entendimento, mesmo sendo simples, humanamente simples de se compreender como atrasos, mal entendidos, desencontros, o difícil é as duas partes se entenderem neste rebuliço de que provocamos.

Chico Maravilha nós estamos por aqui...

Hoje acordei pensando no Chico. Engraçado, devo ter sonhado com ele, pois quando levantei da cama tudo parecia mais iluminado e diferente, como se eu não acordasse agora, em Junho de 2009, mas num dia ensolarado em 1970 e via ele caminhar na minha volta ou então ter falado com ele a poucos minutos. Chico foi um amigo que tive na juventude e que se diferenciava dos outros pela sua alegria de viver e energia com que encarava as coisas e de um espirito transformador. Lembro-me que com ele assisti meu primeiro filme nacional na tela grande do cinema Miramar e que mais tarde virou ícone, "Toda a Nudez Será Castigada- do Jabor." Em 72 ele resolveu criar um jornalzinho quinzenal de rua e que sobreviveu não mais de três meses, era financiado por comerciantes locais da rua onde morávamos e destinava-se alem de propagandas, falar de futebol e fazer fofócas de vizinhos. Organizou também um time de voleibol entre jovens da nossa rua para competir com outros jovens de outros bairros. Soube mais tarde que Chico casou-se, teve filhos, mudou-se para um bairro distante e antes de completar cinquenta anos, morreu de um câncer ósseo. Tocava violão e era fã de Jorge Ben Jor, brincava algumas vezes que as musicas "Fio Maravilha" e "Taj Mahal" tinham sido feitas para ele.

Opiniões inesperadas

Hoje enquanto trabalhava, lembrei-me de um cara que conheci numa festa e que mais tarde veio a ser meu amigo no Orkut. Enquanto conversávamos e trocávamos informações, disse-lhe que trabalhava com socorro nas ruas, numa ambulância, o que ele surpreso, me respondeu prontamente:
_Eu não sirvo para isto, não daria certo eu ficar juntando gente quebrada no meio da rua, até por que eu não sinto pena delas!..
Eu fiquei na ocasião quieto e pensando a respeito de sua afirmação inesperadamente honesta e sem rodeios e perdi a oportunidade de dizer-lhe que também com raras exeções, sentia pena das vítimas que ainda hoje atendo.
Acho que por puro preconceito, fiquei envergonhado de lhe dizer isto.

Eu e a loura de Klimt

Fiquei na cama até bem próximo do meio dia enrolado em cobertores de lã quente e entregue à preguiça. Liguei a TV e virei o rosto para o lado oposto, ouvindo somente o som e sentindo os reflexos das imagens nas paredes brancas do quarto, nos frisos da persiana cinza. Sobre a minha cabeça, lembrei da gravura da mulher loura de Gustavo klimt, também enrolada em cobertas coloridas e em silencio como eu.

Palavras soltas

As vezes me vem a cabeça palavras soltas ou frases que me parecem sem sentido quando tento ouvir oque estou pensando e fica aquela sensação de idéias vagas, descoladas da lógica, descompromissadas de razão e vai fermentando outras novas idéias fugazes. No final encontro alguma lógica ou recaio em desculpas temperadas por motivos naturalmente óbvios, desculpáveis!

Do Começo ao Fim

Quem acha que existem temas na vida que são por demais dificeis de serem abordados publicamente, que passe longe das salas de cinema em meados de Agosto, mes previsto para estréia do Filme "Do começo ao fim", do diretor Aluizio Abranches.
A julgar pelas imagens, ja divulgadas pela internet, a nova obra de Abranches mostra a delicada e incomum relação entre dois irmãos desde meninos até a adultez, os jovens Thomás (Rafeael Cardoso) e Francisco (João Gabriel Vasconcelos).
O filme que aborda indiscutivelmente a homossexualidade e incestuosidade, promete fugir dos padrões e estereótipos e apresenta-se de forma leve mas não superficial um tema de difícil discussão nos dias de hoje.
O jeito é esperar para ver e torcer para que o filme traga elementos e discussões que ultrapassem os limites do óbvio.
Elenco:
Julia Lemmertz, Fabio Assunção, Louise Cardoso, Jean-Pierre Noher, João Gabriel Vasconcelos, Rafael Cardoso, Lucas Cotrin e Gabriel Kaufmann.



Oque é que as baianas tem

Ivete convidou Bethânia para participar de seu DVD "Pode Entrar", com a musica "Muito Obrigado Axé" de autoria de Carlinhos Brow em sua casa em Salvador:


Lembra de mim

O casal de namorados sairam abraçados do bar na Joaquim Nabuco, pensei que só faltava esta musica do Ivan, (que postei ai embaixo), para completar o clima de paixão que eu assistí como anônimo espectador naquela noite fria de sábado:
Lembra de mim
Dos beijos que escrevi nos muros a giz
Os mais bonitos continuam por la
Documentando que alguem foi feliz

Lembra de mim
Nos dois nas ruas provocando os casais
Amando mais do que o amor e capaz
Perto daqui, ah! tempos atras

Lembra de mim
A gente sempre se casava ao luar
Depois jogava nossos corpos no mar
Tão naufragados e exaustos de amar

Lembra de mim
Se existe um pouco de prazer em sofrer
Querer te ver talvez eu fosse capaz
Perto daqui, ou, tarde demais

Lembra de mim...


VELHO VAN GOGH DE GUERRA


Quando atendi o telefone ontem à noite, o convite veio rápido e sem que eu pensasse muito no dia talvez impróprio na semana, frio, cansaço, pouca disposição, etc.: 
_Estamos aqui no Van Gogh, numa mesa onde o violão é quem comanda o espetáculo, vem, pega um casaco e vem! Então, me arrisquei com coragem! O Van Gogh me pareceu o mesmo de alguns anos atrás, com a mesma arquitetura e decoração de antes, mesas e cadeiras de madeira escura com algumas gravuras antigas penduradas na parede e garçons com roupas preta e camisa branca parecendo pinguins. 

O diferencial ficou por conta de seus frequentadores que não são mais os mesmo que circulavam como nos velhos tempos entre os bares da Republica e João Alfredo e que no final da noite iam a procura de um lugar mais tranquilo para a famosa saideira com uma sopinha de capelétti de frango para aquecerem a alma. Quero dizer que tudo continua o mesmo, apenas os frequentadores mudaram. A casa não estava cheia, e na mesa onde me acomodei com alguns amigos, já havia resquícios da conhecida sopa servida. Três músicos sentados à mesa, (violão, tamborim e chocalho) dividiam espaço entre si para tocarem musicas de compositores gaúchos como: Lupicínio Rodrigues, Hermes Aquino, Nelson Coelho de Castro e outros
Bom, o Van Gogh continua sendo aquele velho bar de passagem, do final do agito nas noites Porto-alegrense, com aquele mesmo aspecto descompromissado com as decorações modernas, mas que continua atraindo seus antigos e novos frequentadores por conta da sua velha historia  e roupagem, como um diferencial, simples e sem modismos, apenas o velho Van Gogh de guerra!

Pés de sonho

No quintal por trás de casa
Tem um pé de sonho
Que não para de florar
Florar a noite inteira
Cada sonho seu
Me faz sorrir e até cantar

Rua do Ouro, uma rua
Senhora nada adorada
Não é uma rua
É uma estrada
Cheia de casa do lado
Deixa eu falar desta rua
Que ninguém pode entender
Deixa eu dizer que ela é cheia
De ouro mas ninguém vê

Maria, Mariazinha, que outro dia se foi
Saiu cantando na estrada
Voltou chorando depois
Hoje ela canta sozinha
Chamando pelo luar
Hoje ela chora baixinho
Que é pra ninguém escutar

Que olhar escondes o viço
Dos teus olhos já sem cor
Também só tenho dois braços
Posso colher uma flor
Posso plantar uma rua
Na estrada que vês agora
Posso seguir pela estrada
Quando for chegada a hora.

Petrucio Maia & Brandão.

Biscoitos de Natal

Mariana adora biscoitos de Natal e eu soube que quando ainda era uma menina ficava fascinada por biscoitos caseiros que sua mãe fazia para uma senhora de posses. Os biscoitos eram feitos pôr ocasião dos comemorativos de Natal e em grande quantidade para enfeitar a ceia e saciar os desejos da numerosa família rica. Eram biscoitos saborosos e enfeitados com uma camada de merengue e confeitos coloridos que instigavam as suas fantasias de menina. Sempre que os encontro, compro alguns pacotes para lhe oferecer.
Engraçado, os biscoitos passaram a ter grande importância na vida de Mariana como os ovos de pascoa feitos de açúcar e glacê na minha. Até hoje quando os encontro no mes de Pascoa, levo-os para casa nem que seja para ficar admirando seus enfeites.

Porco Atolado

Na Sexta-feira passada promovi um jantar para amigos em minha casa. Nada de especial, na verdade não é preciso uma data com motivo especial para se receber amigos para jantar, mas é que desde que me mudei para o novo endereço há um ano e três meses que venho prometendo este encontro e termino protelando por razões descabidas. Tinha ideia de fazer um prato de inverno, já que o frio pôr aqui de noite tem nos castigado. Vaca atolada, pensei e que acabei mudando pelo exagerado preço da carne de gado e sua baixa qualidade. Escolhi pôr fazer o prato com carne suína e então mudei o nome para "porco atolado" e com grande sucesso. Na ocasião, ganhei um vidro desenhado e com pimentas de variados tipos e cores que coloquei exposto num local visível na cozinha para que eu me lembre deste encontro carinhoso.

MANERA FRU FRU, MANERA.

Já aconteceu com você de ter lido um texto qualquer, assistido um filme ou escutado uma musica e de repente se dar por conta de que não entendeu nada do que leu, viu ou ouviu? Pois bem comigo foi com a letra da musica Manera Frufru manera do Cd do Fagner, tambem com mesmo titulo, lançado em 1973 pela Polygram.... Pôr mais que eu escutasse a musica não conseguia entender do que se tratava (e olha que escutei muito na tentativa de desvendar , compreender o significado daquela letra). Agora navegando pela Internet, encontrei uma entrevista de Ricardo Bezerra, compositor, arquiteto, professor universitário cearense, personagem atuante na cena musical e cultural, alem de muito ligado à carreira de Fagner que explica em entrevista concedida a Kladia Alvarez:
Entender esta musica depois de tanto tempo me pareceu descobrir a America!


- Em entrevista, você já afirmou que Manera Fru Fu conta a estória de uma prostituta num grande centro urbano. É isso mesmo ? Qual a lógica da música e como ela foi composta ?
RB - Fru Fru é o que podemos chamar de parceria mista. Cada um (o Fagner e eu) fez uma parte da letra e uma parte da música, apesar de que a maior parte da música é do Fagner e da letra, minha. Naquela época era moda a metalinguagem (ver "Vaila" do Ednardo com parceria do Brandão). E nós fomos na onda...Enquanto estava construindo o corpo geral da letra, não me passava pela cabeça qualquer estória de prostituta...Depois de terminado é que inventei essa conversa, pois realmente tinha tudo a ver. Algumas pessoas achavam que era um travesti... Deixo essa parte, no entanto, para Freud explicar a de cada um... O que é certo é que na época fazia muito sucesso o Jorge Ben com "Charles Anjo 45", que tinha aquele refrão que dizia: "take it easy my brother Charles, take it easy meu irmão de coôorrr" Aí na letra de Fru Fru eu transformo isso para "têc têc têc ri, brode brode brode chá" . Entenda quem quiser... Aliás naquela época ninguém estava muito preocupado em se fazer entender. (Depois dessa declaração, espero que o Jorge Benjor não queira cobrar pelos direitos autorais...)
A minha parte da música é só o refrão, sendo o restante do Fagner. É, desculpe a falta de modéstia, uma das músicas mais criativas e intrigantes produzida naquela época e até mesmo para os padrões de hoje. Pelo fato de ser uma música bem diferente, só os corajosos e mais afoitos topa(ra)m gravá-la. (Essas qualidades geralmente só se encontram nos mais jovens).


Coloco aqui, no pé da pagina, a letra da musica, cuja a explicação de Ricardo Bezerra,  ainda não me convenceu:

Estrela, sol e astro, lua
Laiá
Chegam nessa hora agora
Laiá
Para louvar santa alma branca
Centauro fru fru
Fru fru manera
Fru fru manera, fru fru
Nesse mundo imundo só se escuta Alinhar ao centroTeia da teq teq tequiri
Brode brode brode chá
Fru fru manera
Fru fru manera, fru fru
Bat bat bat cum
Toc toc tocoró
Toc toc tocantins
Toc toc tocaré
Teq ted tequiri
Brode brode brode chá
Fru fru manera
Fru fru manera, Fru fru
Mas fru fru o navio
Já chegou pra te levar
Pega 3 trunfos que é
De brode brode brode chá
E vai lá pela boléia
Que é melhor de viajar
Viva a glória
Fru fru gloriosa
Centauro fru fru
É só catimbó
E o chicó tá no Icó
Viva a glória
Fru fru gloriosa
Centauro fru fru
Adeus adeus
Bat que bat que já bateu
Fru fru já vai embora
adeus adeus....

Novidade

A casa era pequena e pobre. As paredes de madeira velha possuíam fendas tão largas que podia-se ver a rua. Os móveis eram um amontoado de objetos quebrados e sem uso. Havia no olhar da mulher uma espécie de resignação e impotência e as quatro crianças pequenas e maltrapilhas, curiosas e assustadas. Seu marido que recebeu alta hospitalar alguns dias, vitimado por derrame cerebral, dormia sobre um sofá rasgado num canto da casa e cheirava a urina de vários dias. Pareciam sentirem-se perdidos, desassistidos diante de tanta novidade e do que ainda estava por vir.

Desfazendo nós...

...É isto que faço toda a vez que saio para trabalhar e procuro questionar idéias com meus colegas ou clientes. Quando escrevo textos que ora são ousados, ora melancólicos e saudosos, ora sem sentido e descabidos. Quando me trancafio em casa e não quero ver ou falar com ninguém, quando não atendo o telefone ou ouço radio. Quando me ponho alegre e mando rosas, quando faço convites, quando não compareço ou desapareço dos compromissos. Quando bebo vinho só ou acompanhado. Quando faço planos deliciosos de viagem. Quando lembro do meu passado e do presente, da minha vida, dos meus sonhos. Quando fecho portas e janelas dentro de mim e me pondo silencioso, é isto que faço: Desfazer nós para amanhã estar melhor!...

Cronologia

Correm horas, dias, semanas, meses e anos. E as horas são quase imperceptíveis, os dias tão rápidos emendando nas semanas velozes, nos meses apressados, nos anos que se passaram tão iguais e só se percebe a diferença olhando pra traz, observando-se este fluxo ao contrario que é mais rápido do que os olhos, os sentidos, as palavra, as sensações!..

SEU CORREIA.


Seu Correia era um homem negro e com dentes tão brancos e perfeitos que alguns vizinhos preconceituosos diziam que não combinavam, com um alguém de pele tão preta-reluzente. Era amigo de longa data de meu pai que dizia lhe dever a vida, quando trabalhavam nas minas de carvão.
Veio morar num quarto alugado, em frente da nossa casa e minha mãe sempre elogiava-o por  sua tamanha educação e presteza. Não se relacionava com ninguém além da minha família e a velha que lhe alugava o quarto.
Um dia surgiu um boato entre vizinhos, sem que soubéssemos o autor e que nos deixou temerosos: Diziam que um grande cão preto rondava á noite pelo nosso pátio e que era seu Correia transformado em lobisomem. 
Minha mãe assustada, pendurava alho nas portas e janelas e fazia-nos rezar ajoelhados. Depois de algumas semanas, seu Correia ficou sem aparecer em nossa casa, desconfiado, meu pai foi a sua procura e então encontrou-o morto já há alguns dias, caído em seu quarto.

Caminhos

Tem caminhos sem volta!.. Melhor dizendo: Às vezes trilhamos caminhos que não tem mais volta por que o construímos meio descuidado e sem pensar que um dia poderemos vir a nos arrepender do que decidimos ou o curso que tomamos. Na vida, nada vem pronto, e está provado que a gente é que constrói nosso destino colocando tijolos sobre tijolos numa construção lenta e as vezes sofrida. Até mesmo o nosso fim construímos! Falo disto agora, dando uma olhadinha pra traz e percebendo que somos arquitetos da nossa história. Quantas decisões já tomei errada pensando estar certo, quantos caminhos desistí por achar-me incompetente e que só serviu para atrasar sonhos que poderiam terem sido construídos á favor de uma nova vitória ou mais uma celebração? Mas nem sempre saímos vencedores ou planejamos a nosso favor.
Hoje, removendo um homem de quarenta e oito anos, emagrecido, debilitado, com história de drogadição e com doenças que certamente o levará a morte brevemente, fiquei pensando nisto... Sem pai, mãe, esposa, filhos, abandonado por todos, ele segurou minha mão pôr uns minutos e me disse com o olhar emocionado: _Isto tudo, eu cavei com as minhas mãos, mas não estou arrependido de nada! Depois escondendo o rosto para o outro lado, completou chorando: _Ninguém merece isto, ninguém!..
Havia sim, dor e arrependimento naquele olhar.

Postagem em destaque

TÔ PENSANDO QUE:

Quando as nossas emoções, alegrias e tristezas passam do tempo, nossos sentimentos humanos ficam acomodados numa cesta do tempo recebendo so...