sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UMA MÃE EMPRESTADA.

Lembro-me que gostava mais da tia Maria, do que da minha própria mãe e de todo o resto da família que a vida me apresentou e hoje por alguma razão, voltei a sentir sua falta, do calor de seus braços que me aninhavam nas noites solitárias de inverno, quando cobertores eram poucos e cães uivavam nas esquinas escuras. 
Tia Maria era vista por algumas pessoas, como uma andarilha. Depois do trabalho, saia a visitar parentes que a acolhiam em suas casas, em função de algumas privações pela qual passava. Caminhava grandes distancias á pé pelas ruas, arrastando sacolas que mal conseguia carregar. Embora tivesse um marido, preferia muitas vezes pousar fora de casa. Talvez quisesse fugir de sua dura realidade.
Lembro-me de vê-la chegando na minha casa, carregando suas sacolas, do seu silencio de cumplicidade, de seu sorriso, da sua paciência para me ouvir e de me contar histórias, da sua sensibilidade que às vezes a fazia chorar e a lamentar as dificuldades e pobreza em que vivia, do seu visível carinho por mim e de me ter como a um filho.
Curioso lembrar dela, neste momento, nesta noite chuvosa em que o vento dobram as arvores, sentir sua falta, do seu café com leite e pão torrado, do seu lenço preso na cabeça, do seu vestido presenteado pela patroa, do seu cheiro de mãe emprestada e que agora, não sei porque razão, me causa esta saudade apertada.
Se eu pudesse, eu a traria de volta, lhe serviria o mesmo cafe, com pão torrado e falaríamos dos velhos tempos. Assistiríamos a chuva cair, depois  dormiríamos juntos, abraçados.
As lembranças por vezes povoam descontroladas dentro da minha cabeça, como se quisessem arrebatar o tempo, quebrar suas paredes de vidro e quando percebo, estou noutro lugar, vivenciando aqueles mesmos sentimentos vividos no passado e até um pouco mais; com o peso de uma saudade sombria e uma certa estranheza de quem reconhece que está fora de seu tempo real, mas precisa retomar esses momentos que são únicos, somente meus.

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