domingo, 29 de junho de 2008

O gato


O gato passeia pelo muro do edifico ao lado. Olhar de felino Siamez e profundo azul que esconde segredos. Sempre nos vigiamos desconfiados. Eu da janela que se abre silenciosa e ele de sua rota marcada. Temos missões secretas que jamais confiaremos um a o outro, talvez nem para nós mesmo, animais urbanos.

Enquanto o resgate não chega

Pela manhã quando cheguei em casa após um plantão de 24 horas, não quis deitar para dormir, tomei um banho e sai a procura de gente. Tinha urgência de ver pessoas, que considero amigas. Ver seus rostos, observar seus gestos, ouvir suas vozes. Quando as encontrei, percebi mudanças não tão significativas em algumas delas, mudanças provocadas talvez por suas vidas borradas de pequenos problemas, insatisfações pessoais, estresse do trabalho e algumas pequenas alegrias ditas comum, previamente esperadas... Rimos, bebemos café e até contamos piadas com pouca graça. Voltei para casa menos tenso, e com a sensação de sermos náufragos de um mesmo barco encalhado e na expectativa e esperança de um resgate que demora a chegar, mas que temos um ao outro para nos aliviar enquanto o socorro não chega.

Dolores

Eu amava Dolores Duran e tudo que cantava sem nunca te-la conhecido. Imaginava uma mulher com um vestido comportado como era os da época, cantando debruçada sobre uma janela, expondo o seu olhar triste, melancólico, para quem passava na rua.

Depois, por algum tempo, confundia-a com Cacilda Becker a dama do teatro. Somente depois quando esta paixão tendeu a aumentar é que fui em busca de seu rosto estampado em algumas revistas da época. Minha mãe, também fã da cantora, ensaiava dentro de casa, algumas de suas musicas temperando minha sensibilidade musical de criança e seu cansaço pela labuta da vida .

Ione

Ione visitava minha mãe com freqüência e fazia-lhe confidencias com intervalos de lágrimas. Lembro-me de sua tez altiva, e o aroma de seu perfume francês, seus sapatos coloridos combinando com a bolsa elegante, unhas vermelhas e lábios do mesmo ton. Um dia confessou estar grávida, disse que não poderia ter mais um, sacrificar sua vida e a do marido que amava. Precisava resolver o problema inesperado, colocar as gotas numa clinica clandestina oferecida por uma colega do trabalho. Depois disto, nunca mais a vimos, pois foi a ultima coisa que fez.
"Lembrei deste fato ao visitar uma pagina da Internet onde havia uma foto de Eliana Pitman, do qual Ione se parecia".

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Beatriz, eu e Vivaldi

De tarde ouvi Vivaldi e suas: Quatro estações enquanto degustava uma taça gigante de cabernet Sauvignon sobre a cama. Lembrei-me que precisava ir até o supermercado pois faltava-me cebolas, batatas e tomates em minha despensa. Pensei que faltava-me também outras coisas, mas não as encontraria em supermercados. A alguns anos a traz, ouvia este mesmo concerto deitado na cama sobre uma colcha de retalhos na casa de Beatriz. Na casa de madeira onde se ouvia também o riacho correr, os pássaros cantarem. Ficávamos longos minutos deitados divagando sobre a vida, viajando dentro dos acordes delicados. Muitos anos se passaram e Vivaldi ainda provoca-me sonhos, Beatriz eu não sei.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Desfecho...em cima

Quando soube, hoje, da morte violenta de meu colega de trabalho num acidente de transito em seu retorno para casa, fiquei imediatamente pensando no desfecho de nossas vidas. Vida que vivemos, que fizemos planos, que amamos, que desperdiçamos, que ora cuidamos, que expomos e que não pensamos que no outro dia podemos perde-la.

Pés sujos, pipa rasgada e lagimas.

Soube da morte de Catatau por outra colega de trabalho, pela manhã, durante um atendimento à um senhor de 53 anos que havia feito uma parada cardíaca em seu domicilio. Enquanto realizávamos manobras de ressuscitação com o paciente deitado a o chão, observava um menino de 9 a 10 anos que se aproximava da porta com o olhar assustado e curioso. Algumas vezes pedíamos para que ele saísse dali, mas ele driblava nossa atenção e voltava a observar tudo, escondido entre frestas espalhadas pela casa de madeira. Quando já por fim, exaustos em nossas tentativas, e  determinado que mais nada poderia ser feito, observei o garoto sentado sobre o muro do pátio, pés encardidos, cabeça baixa olhando para o chão, com uma pipa rasgada entre as mãos e seus olhinhos marejados de lagrimas.

Inês Lanmberthini

Inês me visitou ontem, as pressas, como sempre faz. A principio parecia alegre, bem dispostas logo que chegou, mas aos poucos, a medida que falava sobre sua vida, seus anseios, seus olhos foram perdendo o brilho e uma sombra de tristeza invadiu seu rosto antes iluminado entre um sorriso verdadeiro e outro de disfarce. Percebi sua necessidade de obter respostas das quais não me sentia apto à lhe dar, duvidas em mudar uma vida que acreditava ser feliz, fragilizada por um amor que não parece ser suficiente, perdida em uma paixão que talvez tenha acabado antes mesmo de ter iniciado. Quando foi embora, as pressas, do mesmo jeito com que chegou, me recolhi e fiquei pensando com alguma tristeza do que ela precisava, o que procurava. Então rezei do meu geito para que ela se ilumine e encontre por si só, suas próprias respostas.
"O tempo nos transformará, nos deformará... Este mesmo tempo que nos dá respostas, nos cura, nos mata!"

26/06/2008

O dia hoje, pareceu nascer diferente dos outros dias, feio, cinza, com aquela atmosfera pesada, sem vento, sem nuvens desenhadas no céu. Arvores não dançavam a sinfonia dos ventos, tudo parecendo cena montada de um cinema mudo, fora de ritmo e da ordem natural. As pessoas caminhavam pelas ruas com um ar de aborrecimento, meio sem vida, desanimadas como se nada pudessem fazer para melhorar suas vidas, seu mundo, o clima triste. Depois quando anoiteceu, a chuva começou a cair persistente e tudo ficou deserto, sem movimento com apenas alguns reflexos de luz sobre o asfalto negro.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

24/06/2008

O amor é libertário. Não se pode pensar que ele não disponibilize espaços individuais necessários, que ele não pactue confiabilidade e cumplicidade mutua, que ele não regule o equilíbrio nas diferenças que se contrapõe nas relações.
Amar deve ser soltura da alma regada ao prazer da convivência, do desejo. Não consigo conceber um amor que aprisione sob o julgo dos ciúmes, das desconfianças, das insatisfações pessoais somadas e não resolvidas. Por isto amar exige cuidada atenção, paciência e respeito às suas dualidades.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Acho o Eixo

Acontece que se algo esta errado comigo, incomodando-me, tirando-me da rota, trato de reverter imediatamente a situação. Esforço-me para encontrar novamente o eixo que perdi. Se não o encontro, devo pensar e mudar de rota! Mas a rota deve ser uma avenida com palmeiras iluminada pela lua e perfume de rosas lilás como as que entreguei dia 30 de maio em forma de carinho! Por tanto acho o eixo sem Oscho.

domingo, 22 de junho de 2008

Borba me ligou

Minha mãe me telefonou hoje a tarde durante o plantão. Queria saber de mim, ouvir minha voz, saber se já tinha me curado da gripe, se estava me protegendo das noites frias, deste inverno que legalmente ainda não entrou, mas que como dizem os gaúchos: "Já está fazendo um frio de renguear cusco. Lembrou-me entre risos que somos uma familia e por isto, temos de nos ver com freqüência, contar sobre nossos dias, nossas alegrias e também nossas tristezas.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Experiencias do Campo

Quando meu pai foi trabalhar numa fazenda no interior do estado toda minha familia o acompanhou, menos eu. Minha mãe era a cozinheira oficial do grupo de funcionários. Eu fiquei em Porto Alegre com minha tia para não perder o ano letivo. Contava nos dedos o termino das aula para poder estar com eles.
Numa destas férias, quando fui visita-los, eu rolava pelo campo, numa destas brincadeiras enlouquecidas de criança, quando me senti tonto, nauzeado, dor de cabeça, mal estar geral sem saber o que estava me acontecendo. Fui levado para dentro de casa, termometro debaixo do braço, garganta dolorida, não conseguia engolir a saliva.
Quando o estranho médico chegou numa carroça, da vila vizinha, me examinou e sorriu dizendo aliviado: -Doença de criança, cachumba!
Este período, marcou muito minha vida, pois lembro de cada detalhe que vivenciei, das pessoas, do pomar, das galinhas que viviam soltas e dormiam nas arvores e voavam sobre nós a o amanhecer, do deposito de sal que ficava ao lado de nossa casa, o açude fundo onde minha irmã tentou afogar o menino travesso que morava do lado, o carneiro que perseguia minha mãe grávida. A guerra de caquis, os cavalos selvagens, o milho assado no fogão de campanha, os passeios de charrete, o funcionário albino e analfabeto, que não enchergava direito. Os sonhos, os fantasmas, o ruido do vento nas arvores, a triste beleza do entardecer, a simplicidade de tudo. Acho que todos deveriam alguma vez na vida, sentirem a experiência de viver no campo, numa fazenda no interior. Ao menos uma única vez em suas vidas.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Distração Digital

Era um jogo com varias formas geometrias, como triângulos, retângulos, quadrados e outras figuras disponíveis em uma plataforma digital. A missão era formar combinações de tres ou mais figuras iguais formando um numero máximo de pontos. Juro que tentei me distrair, porém, decididamente não é minha praia estes joguinhos de celular.

Heranças

Erika herdou quase todos os móveis e objetos de sua avó morta. Empilhou-os num canto do sótão empoeirado de sua casa, dizendo não saber o que fazer com aquilo tudo. Um dia encontrou entre estes pertences um sapatinho de lã com um papelzinho escrito: “Lembrança de minha querida neta”.

Brincadeiras de criança

Quando pequeno, ajudava minha avó a escolher feijão sobre a mesa de madeira da cozinha. Separava atentamente todos os grãos bons dos ruins, imaginando que eram bois em uma grande estância do interior. Juntava alguns pretos, marrons e malhadinhos e guardava entre meus brinquedos para mais tarde voltar a brincar.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Filha de Ogum

Bel é destas mulheres fortes, bonitas, arranjadas pela vida. De opinião e presença firme. Por si só, é casa cheia, é festa é gargalhadas, bondosa, sincera, corajosa e simples. Tem cabelos longos e crespos jogados nas costa sobre o rosto de marfim, olho que brilha dentro do teu. Fumaça de palheiro, cachaça pura, sem misturas. As vezes fala grosso e não tem medo de nada. Afinal é filha de Ogum!

terça-feira, 17 de junho de 2008

Caricias roubados

Aos nove ou dez anos de idade, entrava pra dentro do guarda- roupas de minha mãe. Ficava ali enrolando-me em suas roupas de cama, seus casacos, suas toalhas de banho, procurando uma espécie de conforto que não sei explicar bem qual é. Quando ela chegava em casa, cansada do trabalho, eu ficava no meu canto, quieto, tendo a sensação de que tinha feito algo errado mas abraçado-a e beijado-a por horas sem que ela mesma soubesse.

Tarde na praça

Abri a caixa do correio,
homem de farda, gato pardo,
carroça passando,
bicicletas com cachecol,
futebol na praça,
telhados de barro,
criança no balanço,
folhas secas no caminho,
casas velhas de varandas,
mãos nos bolsos,
vigia adormecido ao sol,
vozes de crianças na escola a brincar,
trepar na arvore,
garotos gordos, bochechas rosadas,
bolinhos crús,
fim de tarde,

isto é vida!

Boal

Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos "espect-atores" .

Augusto Boal

Augusto.

As vezes penso em quantas pessoas de nosso meio, não conhecemos direito por que ficamos vagando no meio delas em nossos mundinhos, sem observa-las atentamente. Alguns podem ter sido poetas ou loucos e não demos a chance de ouvi-las, observa-las, de saber suas verdadeiras histórias, suas reais verdades. Não abrimos nenhum espaço da nossa atenção.
Tio Dudu era um homem quieto, mas quando falava tinha a voz mansa, pausada e carinhosa com todos nós. Minha mãe conta que na sua juventude, tinha atitudes estranhas. Não falava com ninguem e as vezes sumia no meio do mato por longas horas. Era, as vezes, encontrado deitado de baixo das arvores conversando sozinho, gesticulando, ou olhando pro céu como se buscasse alguma coisa. Quando contraiu câncer de garganta, muitos anos depois, passou a falar ainda menos e seus olhos muito mais.

Dona Dione

Dona Dione fazia seu crochê dia e noite de olhos fechados e testa franzida. Confessou-me certa vez que tinha medo de ficar cega, portanto, tramava suas linhas de olhos fechados para que a vida não lhe causasse mais surpresas.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Oque é ser pobre!

Um pai bem de vida, querendo que seu filho soubesse o que é ser pobre, o levou para passar uns dias com uma familia de camponeses. O menino passou três dias e três noites vivendo no campo. No carro, voltando para a cidade, o pai perguntou:
- Como foi sua experiência?
-Boa, responde o filho, com olhar perdido a distancia.
-E o que você aprendeu? Insistiu o pai. O filho respondeu:
-Primeiro: Que nós temos um cachorro e eles tem quatro;
-Segundo: Que nós temos uma piscina com agua tratada, que chega até a metade do nosso quintal. Eles tem um rio sem fim, de agua cristalina, onde tem peixinhos e outras belezas;
-Terceiro: Que nós importamos lustres do oriente para iluminar nosso jardim, enquanto eles tem as estrelas e a lua para ilumina-los;
-Quarto: Nosso quintal chega até o muro. O deles até o horizonte;
-Quinto: Nós compramos nossa comida, eles cozinham;
-Sexto: Nós ouvimos CDS... Eles ouvem uma perpétua sinfonia de pássaros, periquitos, sapos grilos, e outros animalzinhos... Tudo isso as vezes, acompanhado pelo sonoro canto de um vizinho que trabalha sua terra;
-Sétimo: Nós usamos microondas. Tudo o que eles comem tem o glorioso sabor do fogão à lenha;
-Oitavo: Para nos protegermos vivemos rodeados por um muro, com alarmes... Eles vivem com suas portas abertas, protegidos pela amizade de seus vizinhos;
-Nono: Nós vivemos conectados ao celular, a o computador, à televisão. Eles estão conectados à vida, ao céu, ao sol, ao verde do campo, aos animais, às suas sombras, à sua familia.
O pai ficou impressionado com a profundidade de seu filho e então o filho terminou:
-Obrigado, pai, por ter me ensinado o quanto somos pobres! Cada dia estamos mais pobres de espírito e de observação da natureza, que são as grandes obras de Deus.
Nos preocupamos em ter, ter, ter e cada vez mais ter. Em vez de nos preocuparmos em ser.
autor desconhecido
*Este texto andou vários dias nas mãos de minha mãe; disse-me que não lembrava como chegou até ela. Num almoço de domingo ela deu para mim ler. Prometi que postaria em meu blog.


ENSAIO DE CORES.

Minha agenda está toda rabiscada de idéias, pensamentos soltos, sonhos que não transfiro para ela. As vezes mantenho-a aberta por vários dias aguardando respostas... Respostas que não encontro em mim.
Um dia tudo deixou de ter graça, as piadas, o sorriso das crianças, as peripécias dos filhotes, as cores da vida. Então comecei a exercitar minhas emoções com algumas pinceladas até recuperar tudo de volta, como era antes...

domingo, 15 de junho de 2008

Grandezas

Meu tio queria que eu fosse grande naquilo que ele considerava ser grande. Com o tempo percebi que tínhamos noções de grandezas diferentes na vida . Por um longo tempo essas diferenças nos afastou e então rompemos relações. Só descobri mais tarde quando já não era possível retomar o tempo perdido e estagnar a doença que o levou em poucos meses. Hoje tento ter cuidado com as pessoas que convivo para não reincidir no mesmo erro.

Engrenagem

Quando meu amigo partiu, lembrei o quanto tudo por aqui é provisório. Que partimos sem concluir aquilo que pensamos a que viemos. Deixamos lacunas a serem confiadas e preenchidas por outros que jamais conheceremos, por que partimos antes, sem prévio aviso, sem termos a chance de despedirmo-nos de nós mesmos. Incompletos, naquilo que achamos ser nossa missão, nossos sonhos de realizações, nossa felicidade. Viveremos na memória dos outros, de quem quiser lembrar e um dia também desapareceremos no esquecimento, pela engrenagem da vida, pela substituição que se faz necessária a cada dia que nasce e que morre. Sem culpas, sem responsáveis, apenas regras da vida.

auto confiança?

Meu sobrinho João Victor é distraido. Cruza as ruas para buscar a bola sem olhar para os lados numa confiança cega. Acho que um dia também já fui assim. Hoje fico esperando quem vai me buscar, me estender as mãos para que eu atravesse a rua fora da faixa de segurança com o sinal vermelho aberto e os olhos bem fechados. Quando desconfio da sorte, aguardo o sinal ficar verde e olho para todos os lados!

Magia do céu...

Não lembro de noites tão frias como as deste inverno, talvez tenha tido. Certa manhã, nevou em Viamão. Lembro-me de minha mãe chamando eu e minha irmã para ver os pequenos flocos de algodão gelado caírem do céu magicamente.

As cegonhas...


As cegonhas flutuavam sobre o extenso lago por onde eu passei. Silenciosas, como se fossem de papel. Lembrei que acreditava ter sido trazido ao mundo por uma delas, por encomenda de minha mãe. Tinha duvidas se elas poderiam suportar meu peso enquanto atravessavam as nuvens comigo pendurado a o seu bico rosa.

Cinara...

Tratava Cinara como se fosse filha, embora não fosse. Queria talvez ser o pai que não tive. Eu escolhia suas roupas, seus amigos e até o modo de ver a vida. Em troca, ela matava as aranhas do qual eu tinha medo. Cinara cresceu e brigou por sua liberdade, eu então, perdi o medo de aranhas.

Geovana

Geovana tem os cabelos negros e longos e o rosto que parece o de Justine. Traços de uma bela mulher que sofreu mas não perdeu a doçura, a sensibilidade, a sublime alegria de viver. Justine procurava seu amado filho, perdido, desaparecido, que talvez nunca existiu.

Antiga cicatriz...

Dick adorava os churrascos de fim de semana que meu pai promovia. Ficava na espreita mostrando-se pela metade. O corpo escondido no porão e o nariz úmido, pra fora, controlando a deliciosa fumaça que se espalhava pelo corredor até a rua. Um dia ele não aguentou a tentação e arrastou metade do churrasco da grelha para o seu esconderijo. Meu pai ficou furioso. Esperou-o com paciencia até ele saciar-se, aqueceu um pedaço de osso na brasa e quando estava bem quente chamou-o oferecendo o premio preso nas garras de um alicate.
Dick então aproximo-se tímido e meu pai encostou o osso em brasa em seu focinho preto, enquanto segurava-o pela coleira. Dick gritou e chorou o dia e a note toda, depois desapareceu por quase um mes. Quando reapareceu no pátio, tinha uma ferida vermelha que com o passar do tempo ficou branca. Nuca mais vigiou os churrascos de meu pai e eu tambem não mais os comi.

sábado, 14 de junho de 2008

Rua 9

Na rua Nove, perto do colégio Ibá, o cachorro me olhava por cima do muro, que antes sentei. Silencioso, olhar sereno de amigo, quase humanos.
Agora, moram nesta casa outras pessoas que não conheço. O cachorro também não mais o mesmo!

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Vinculos do passado

Atendi hoje pela manhã uma senhora negra de setenta e nove anos, que se queixava entre tantas outras de dor no peito. Enquanto eu a examina e verificava seus sinais vitais, observava atentamente sua expressão de inocência, sob os cabelos brancos, sua delicadeza de gestos, fragilidade e meiguise.
Observei também sua casa simples enfeitada com guardanapos de crochê, cortinas de bambu e folhagem vistosas no canto da sala.
Uma foto na parede, mostrava seu rosto jovem e sem rugas, expressão de alegria e orgulho na flor de seus vinte e cinco anos. Quando perguntei se a foto era dela, me respondeu angustiada:
-Sim era eu, quando era gente!
-Mas a senhora ainda é gente!- Respondi prontamente.
-Minha familia, sempre foi assim nota vinte, bonita!- Me falou orgulhosa enquanto passava o pente em seus cabelos desalinhados. Depois apoiou-se em meu braço e seguiu até rua para que eu a conduzisse até a ambulância. Não sei por que tudo me parecia tão familiar. Seu rosto, sua casa, seus pertences, que fiquei a procura de vínculos perdidos em suas palavras, nas paredes de sua casa manchadas de mofo, seus bibelôs antigos
, seus objetos e vontade de qualquer dia visita-la como um simples amigo.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Guarana & Musica


Existe uma frase que diz: Antes só do que mal acompanhado. Felizmente não tenho tido más companhias nos últimos meses, todas são selecionadas e muito agradáveis, mas hoje resolvi -me por uma diferente. Eu, um copo de guaraná na beira da cama e Andreas Vollenweider- White Winds no compacto de som.

Shakespeare?

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. Você aprende que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.

William Shakespeare.

COMO DIZ LEILA DINIZ.



Acordei as dez horas da manhã, com o sol batendo em minha janela, depois fui caminhar pelas calçadas, na praça a poucos metros de minha casa, observando o movimento das arvores, sentindo o vento forte e frio congelar meu rosto. Engraçado, mas enquanto caminhava, sentia que esta cena, já havia acontecido antes comigo, a muito tempo a traz. Apesar de estar bem abrigado, com calça grossa e casacos de lã, o frio conseguia ultrapassar todas as camadas de roupas e me atingir os ossos. Num determinado momento, durante minha caminhada, fui transportado mentalmente para outro lugar, outro período de minha vida onde lembrei da cena que parecia se repetir.
Era 14 de Julho de1972, quando saia para rua numa manhã como a de hoje e ouvi no rádio de pilhas de um amigo a noticia da queda de um avião na Índia sem sobreviventes. Entre as vitimas, uma brasileira conhecida, a atriz Leila Diniz. Isto já faz quase 36 anos e eu na época tinha apenas 14 anos. Lembro-me de ter ficado estarrecido com a noticia e ter chorado o resto da manhã. Pra mim era impossível não lembrar daquela mulher alegre, bonita e despojada e que foi fotografada grávida, de biquíni numa praia do Rio de Janeiro. A mulher que quando aparecia na tv, minha mãe trocava de canal, por ser muito desbocada. Quando retornei para minha casa, depois do passeio, sentei-me na frente do computador e resolvi saber mais sobre sua vida. Revitalizar lembranças que as vezes ficam meio apagadas pelo tempo. Pensei também que no dia que soube de sua morte ventava forte e fazia sol, como hoje.
Leila formou-se em magistério e foi ser professora do jardim de infância no subúrbio carioca. Aos dezessete anos de idade, conheceu o seu primeiro amor, o cineasta Domingos de Oliveira e casou-se com ele. O relacionamento durou apenas três anos. Foi nesse momento que surgiu a oportunidade de trabalhar como atriz. Primeiro estreou no teatro e logo depois passou a trabalhar na TV Globo, do Rio, fazendo telenovelas. Mais tarde, casou-se com o moçambicano e diretor de cinema Ruy Guerra, com quem teve uma filha, Janaína.
Participou de catorze filmes, doze telenovelas e muitas peças teatrais. Ganhou na Austrália o premio de melhor atriz com o filme Mãos Vazias
Leila Diniz quebrou tabus de uma época em que a repressão dominava o Brasil, escandalizou ao exibir a sua gravidez de biquíni na praia, e chocou o país inteiro ao proferir a frase: Transo de manhã, de tarde e de noite. Ganhou o título de A grávida do ano no programa do Chacrinha.
Era uma mulher à frente de seu tempo, ousada e que detestava convenções. Foi invejada e criticada pela sociedade machista das décadas de 1960 e 1970. Era malvista pela direita opressora, diva amada pela esquerda ultra-radical e tida como vulgar pelas mulheres da época.
Além de ser jovem e bonita, Leila era uma mulher de atitude. Falava de sua vida pessoal sem nenhum tipo de vergonha ou constrangimento. Concedeu diversas entrevistas marcantes à imprensa, mas a que causou um grande furor no país foi a entrevista que deu ao jornal O Pasquim em 1969. Nessa entrevista, ela, a cada trecho, falava palavrões que eram substituídos por asteriscos, e ainda disse: Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo.
O exemplar mais vendido do jornal foi justamente esse onde houve a publicação da entrevista da atriz fluminense. E foi também depois dessa publicação que foi instaurada a censura prévia à imprensa, mais conhecida como Decreto Leila Diniz. Perseguida pelo polícia política. Alegando razões morais, a TV Globo, do Rio de Janeiro, não renova o contrato de atriz. Leila ficou escondida no sítio do colega de trabalho e apresentador Flávio Cavalcanti, se tornando jurada do seu programa, no momento em que é acusada de ter ajudado militantes de esquerda.
Meses depois, Leila reabilita o teatro de revista, e começa uma curta e bem sucedida carreira de vedete. Estrelando a peça Tem banana na banda, improvisando a partir dos textos escritos por Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. Recebe de Virgínia Lane o título de Rainha das Vedetes. No carnaval de 1971, é eleita Rainha da Banda de Ipanema por Albino Pinheiro e seus companheiros.
Morreu num acidente aéreo, da Japan Airlines, no dia 14 de julho de 1972, aos 27 anos, no auge da fama, quando voltava de uma viagem feita para a Austrália.
Sua amiga, a atriz Marieta Severo e o compositor e cantor Chico Buarque de Hollanda cuidaram da filha de Leila Diniz e Ruy Guerra, durante muito tempo; até o pai da criança ter condições de assumir a filha, Janaína.
Um primo e advogado se dirigiu a Nova Délhi, na Índia, local do desastre, para tratar dos restos mortais da atriz. Acabou encontrando um diário onde continha diversas anotações e uma última frase, que provavelmente estava se referindo ao acidente: "Está acontecendo alguma coisa muito es...."
Leila Diniz, A Mulher de Ipanema, defensora do amor livre e do prazer sexual é sempre lembrada como símbolo da revolução feminina , que rompeu conceitos e tabus por meio de suas idéias e atitudes.
Você é livre? Perguntas bobas são sempre as mais perigosas, portanto pense um pouco antes de responder...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Inverno, lareira, fondue..



Agora à noite, ventania quase derrubando janelas. Frio e chuva em luta cruzada, torcendo persianas, fazendo doer os ossos dos pés, das mãos que digitam no teclado. Isto tudo é uma delicia para quem tem um teto, uma cama quente. Lembrei desses dias de inverno, em que reunia a familia e alguns amigos em volta da lareira para o papo informal acompanhados de vinho tinto e fondue de carne.

Era casa era jardim...
Noites e um bandolim...
Os olhares nas varandas
E um cheiro de jasmim...

Era um telhado um pombal
Melodia e madrigal
E ninguém nem percebia
Que o real e a fantasia
Se separam no final...

G. Azevedo

Dorian Gray

Ontem vi o Mauro entrar em sua casa, embora ele não tivesse me visto. Passos lentos, cabeça baixa, tórax curvado, olhar fixado no chão como se ignorasse, tudo a sua volta. Difícil acreditar que aquele homem velho, eu conhecia de outros tempos. Pequenos traços ainda lembrava a beleza de sua juventude, porem só quem o conheceu para saber do que falo. Lembro-me também de sentir inveja de sua elegância, sua fartura de charme, sua beleza inegável, sua facilidade com as mulheres. Pensei então que trinta anos se passaram em nossas vidas, distanciando nossa amizade e alterando seus traços, suas formas. Os anos passaram cronológicamente igual para todos e sem dó, inclusive para mim, Mauro, e talvez Dorian Gray.

domingo, 8 de junho de 2008

Recantos de Paris/ Praga & Restinga


No final da tarde, ja quase noite, desceu uma neblina em alguns pontos da cidade que eu parecia estar em um outro lugar, outro pais. Lembrei -me daqueles filmes europeus e de época que tanto gosto de assistir em que as cenas abusam de paisagens simples e bucólicas. De repente, entrei numa ruela que parecia uma vila no interior de Paris, ou quem sabe Praga! As árvores, algumas sem folhas, pareciam pintura à óleo. As luzes dos postes, enfileiradas, lembravam arranjos de natal. Carros andando de vagar, sem pressa, pessoas encolhidas ajeitando o cachecol, o casaco, a toca de lã.
Algumas pessoas não gostam do inverno, preferem o verão por acha-lo triste. Mas eu acredito que este período de frio tem algo de resgate de emoções, de auto analise. De vinho, de chocolate quente, de sexo de baixo das cobertas, de revelações pessoais, moletons coloridos. Artifícios para manter nosso corpo e alma aquecidos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

pensamento solto...

Hoje mais uma noite que promete ser fria. Lembrei que estarei sozinho neste apartamento sem perspectiva do que fazer. Estou sem vinho, sem uísque, resfriado, de nariz congestionado, dor de cabeça, sem paladar e talvez sem vontade de fazer amor. Será que se pode fazer amor de nariz entupido e com aquela coriza irritante e nojenta escorrendo até a boca?
O dia foi infernal. Filas em bancos, cheques devolvidos, respostas evasivas, Fechadura do carro com defeito novamente, orçamentos sem retorno. Amanhã, mais um dia de trabalho, talvez tudo mude para melhor.




quarta-feira, 4 de junho de 2008

Eu e a Brisa

Ontem, como estava muito frio deitei-me cedo. Nada de interessante para assistir na tv, procurei algum livro para rabiscar com os olhos e liguei o radio na sala para fazer-me companhia, ja que meu filho do meu lado, na cama, dormia como um justo. Então começou a tocar uma musica, do qual sempre fui apaixonado pela beleza da letra e delicadeza de seus acordes. Fechei o livro que estava lendo e deixei envolver-me pelo clima.
Pensei que Johnny Alf quando a compôs deveria estar apaixonado. Nada mais explica as palavras de pura sensibilidade e poesia desta composição. Na verdade também pensei que não precisa-se ter alguém para se estar apaixonado, para criar e declamar tamanha poesia. Acho que dormi com o livro nas mãos e o rádio ligado!
EU E A BRISA

Ah! se a juventude que esta brisa canta 
Ficasse aqui comigo mais um pouco 
Eu poderia esquecer a dor de ser tão só 
Pra ser um sonho 
E aí então quem sabe alguém chegasse 
Buscando um sonho em forma de desejo 
Felicidade então pra nós seria 
E depois que a tarde nos trouxesse a lua 
Se o amor chegasse eu não resistiria 
E a madrugada acalentaria nossa paz 
Fica, oh! brisa fica 
Pois talvez quem sabe 
O inesperado faça uma surpresa 
E traga alguém que queira te escutar 
E junto a mim, queira ficar, 
Queira ficar, queira ficar.






terça-feira, 3 de junho de 2008

Assim caminha a humanidade

Num dia destes fui tão mal recebido por uma profissional médica de um hospital de Porto Alegre que se eu não tivesse imbuído na minha responsabilidade profissional, teria abandonado o paciente ali mesmo na sala de emergência e fugido pela porta de incêndio. Era um paciente acamado e que sentia muita dor abdominal. Mesmo claro, para todos que ali estavam presentes a sua situação de enfermidade, a médica me perguntou se ele poderia aguardar consulta no corredor.

Respondi que não, pois ele sentia muita dor. Então com ar de pouco caso respondeu-me que para nós do SAMU, tudo era muito grave e mesmo sabendo dos problemas de superlotação dos hospitais nós insistíamos em jogar pacientes lá dentro. Depois se virou para o familiar que acompanhava-nos e concluiu com arrogância: -Viu como está isto aqui?... Depois quando morrem a culpa é nossa!

Esta cena dramática é que me faz pensar na situação caótica, que vive nossos serviços de saúde. Com suas salas de emergência, sempre lotadas e com profissionais pouco preparados como esta. Senti-me extremamente desconfortável por fazer parte do mesmo sistema.

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